Desobedoc

A História do Cinema Português passa obrigatoriamente pelo Porto. Por várias razões. Aqui se começou a fazer cinema. Aqui se levou a cabo a primeira experiência de uma produção que se pretendeu de escala semelhante à de alguns dos principais estúdios europeus dos anos 20. Aqui se fizeram obras marcantes da cinematografia nacional. Aqui nasceram salas de cinema que viriam a constituir-se como património e imaginário da cidade. Por aqui passaram, viveram e trabalharam grandes cineastas. E porque aqui se viu nascer e consolidar um espírito rebelde e desobediente, o qual, associando a cinefilia à intervenção cidadã, não só contribuiu para a resistência à ditadura do Estado Novo, mas também permitiu a participação criativa na busca de novos rumos para o cinema português.

Manifestação do Que se Lixe a Troika juntou 400 mil pessoas no Porto. Foto de Estela Silva/Lusa

Manifestação do Que se Lixe a Troika juntou 400 mil pessoas no Porto. Foto de Estela Silva/Lusa

40 anos passados sobre o 25 de abril, queremos celebrar esse espírito. Não nos move a saudade, mas a consciência de que a Revolução, que é a marca genética da nossa democracia, foi um ato de desobediência. A mesma que hoje é necessária contra a ditadura dos mercados e da dívida e para construir alternativas a uma Europa dominada pela austeridade.

Nesta mostra de 3 dias de cinema documental, vamos exercer o direito à memória, lembrando o fascismo e a resistência que se lhe opôs, a guerra e quem a combateu, a Revolução e a riqueza extraordinária desse ano e meio de democracia intensa que foi o PREC – período revolucionário em curso. Os documentários que aqui serão mostrados não são apenas retratos da sociedade, mas formas de imaginá-la e de pensá-la. Teremos filmes de há quarenta anos e filmes de hoje, sobre a realidade internacional, sobre o nosso país e a nossa cidade. E teremos cinema de animação.

Num país onde não existe Ministério da Cultura, num Porto a quem os equipamentos culturais foram sendo sucessivamente subtraídos nestes últimos 12 anos, numa cidade onde a austeridade nos morde as canelas e que todos os dias vê tanta gente partir, abrir o Trindade por três dias é, em si mesmo, um ato de resistência. Estão por isso convidados a ser cúmplices. A entrada é livre, o espírito insubmisso.