ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS PORTUGAL 1969-1979

Album Desobedoc

Para assinalar os 40 anos do 25 de abril, a galeria MIRA FORUM fez um apelo no facebook pedindo fotografias captadas entre 1969 e 1979. A partir do olhar das pessoas comuns sobre o seu próprio mundo, obtém-se uma imagem da década mais decisiva da história recente de Portugal. Coube a Eglantina Monteiro a curadoria da exposição que manifesta o quotidiano de uma sociedade que reflete sobre si própria, questionando os valores das instituições em geral. Toda a sociedade projectava mudanças, implicava-se.

Nós não estamos algures
 
Em fevereiro de 2014, o MIRA FORUM fez um apelo no facebook pedindo fotografias da década de 1969-1979 em Portugal, para com aquele material fazer uma exposição que desse a ver como se vivia então neste país. Esta exposição, que homenageou os 40 anos do 25 de abril e que agora se apresenta no contexto do Desobedoc 2016, retrata a década mais decisiva da história recente de Portugal a partir do olhar das pessoas comuns sobre o seu próprio mundo.
Trata-se da década da contestação interna, e da reflexão da sociedade sobre si própria, questionando os valores das instituições em geral e da guerra colonial em particular a revolta estudantil de 1969, um ano após o Maio de 68, revela antes do mais o carácter internacional do movimento estudantil [S. Paulo, Tóquio, S. Francisco, Lima, Roterdão…] e a inadequação da universidade ao mundo contemporâneo, que a televisão, a informática e as viagens espaciais na década anterior inauguraram. A juventude estudantil denunciava então não só a lentidão e os costumes burocráticos das gerações precedentes, como manifestava a sua reprovação perante qualquer tipo de injustiça social, segregação racial, discriminação linguística e sexista. É a primeira geração que cresce diante da televisão – o mundo em imagens – e que inicia a mais contundente e, ainda muito actual, crítica à sociedade do espectáculo. As canções de protesto, as canções contra a guerra, os cabelos compridos, a liberdade sexual, o uso de estupefacientes e a forma de se vestirem – dos “blusões pretos” aos “teddy-boys”, passando pelos “beatniks” e os “hippies”- eram as manifestações mais estridentes da recusa radical das novas gerações – intelectuais e artistas em articulações mais ou menos efectivas com as comissões de moradores e o operariado mais esclarecido – à sociedade de que eram herdeiros. Os objectos de aspiração desta geração opunham-se ao dos seus progenitores, deslumbrados com o automóvel, os electrodomésticos e as férias. A crítica das novas gerações ao paradigma do crescimento continuado e da evolução tecnológica à custa da apropriação de recursos naturais inesgotáveis, do trabalho do colonizado e das classes analfabetas do campo ou recém-urbanizadas, estendia-se agora ao modo como esta mesma sociedade passara a organizar também o não trabalho. A crítica às formas estereotipadas de distração e cultura denuncia as novas indústrias da comunicação e o controlo que estas exercem sobre os indivíduos – os programas de televisão, de férias, etc. 
 
As novas gerações criticam a sociedade de consumo, alienatória na medida em que o indivíduo não pode desenvolver as suas capacidades criadoras, o stablishement crítica e receia os comportamentos evasivos e alienados dos jovens que se organizam em comunas regidas por outras normas sociais.
 
De uma maneira ou de outra, toda a sociedade projectava mudanças. Implicava-se.
 
Eglantina Monteiro

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